segunda-feira, 31 de março de 2008

25 - Eu queria ser

O que hei-de fazer com costas de ti? E das pessoas. Uma aflição insuspeita abana-me a perna (e é a direita, mas não me apetecia rimar). Que hei-de fazer com palavras apagadas? as palavras não se ressuscitam como ...

Tenho medo dos desastres naturais e dos outros, porque os meus sonhos acordada estão cheios de perigos. E, contudo, sobrevivemos.

Não posso ser eu a cabeça que pensa isto tudo. Mas então quem ou o quê?

Existe uma certa angústia nestas linhas e quase tão palpável

Existe uma certa confusão nestas linhas e existe

Não sei se foi de me deixares sozinha, a chorar
Não sei se foi de me deixar sozinha a chorar

Entretanto apago coisas pelo caminho, talvez consiga fazer de mim os fragmentos de mim mas só os que eu quiser aqueles mesmo bons que não existem

Se vivi tão feliz a felicidade é eterna? Existem tantas perguntas, meu Deus, existem tantas perguntas, existem tantas perguntas, meu Deus, meu Deus, meu Deus, existem tantas perguntas e desespero.

Alguém tinha de to dizer. Existem perguntas e lágrimas como mãos estendidas ao céu e preces de boca fechada. Existem trabalhos e mãos calejadas pés doridos existem rugas nas caras das mães existem sacrifícios calados existe sofrimento e existe.

Dói-me a parte de trás da alma, não, mais para a direita.

O que se passou com lado direito do meu ser?

Serei eu essa folha? Essa luz? Essa cama? Esse astronauta?

Dá-me, dá-me tudo e eu farei

quarta-feira, 5 de março de 2008

24 - Às escondidas

O que me mostras ser, e depois...
Há sereias escondidas nas rochas dos teus sorrisos. Como se a qualquer momento fosse estalar, esse verniz.
Mas não estala, nunca estala. O meu, talvez. O teu, nunca.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

23 - Desafio Escreva! - Quarto Escuro

Está escuro e não posso chorar. Está escuro e, oh meu Deus, não posso chorar, porque tenho 22 anos e aos 22 anos ninguém tem medo do escuro.

Tento rebuscar, na parte mais recôndita do cérebro, a razão, o porquê. Mas não há memória que me valha nestes momentos de desesperante solidão. Nem as vozes na minha cabeça me acalmam neste lugar desconhecido, sem luz, por pequena que seja, que aqueça o lume da esperança e deixe o coração respirar.

Mas o coração é cheio de recursos e, quando não há esperança, alimenta-se de outras coisas. Há coragem que nasce em quartos escuros, sem janelas, sem portas. E o bater acelerado do coração pára um pouco, tenta bombear o cérebro, como que invectivando, não sejas preguiçoso, não páres, não desesperes, estúpido órgão (não será preciso referir, certamente, que a vaidade do coração, o orgulho que exibe na sua cor sangrenta, ultrapassa até a soberba do cérebro, e o coração acredita seriamente ser superior a esse órgão pensante, ainda que viva abaixo dele).

Então, vêm-me memórias, melhor, fragmentos de memórias, coisas desagradáveis (não admira que não me quisesse lembrar delas). Um grande desespero, gritos arrepiantes de angústia, choro convulso de meter dó às pedras.

Alguém morreu.

Mas quem? Quem? Agora as memórias, mais fracas, vão-se dissipando. Estou sozinha no quarto escuro, outra vez.

Alguém morreu e eu no quarto escuro. Mas qual a misteriosa relação entre essa morte e o quarto escuro?

Espero em silêncio. Sinto a boca amarga, mas já não há lugar para o desespero dentro de mim. O coração bate ritmicamente, cadenciadamente, compassado, harmonioso. O coração bate, injecta sangue nas veias, e o cérebro, irrigado, pulsa em neurónios irrequietos.

Espero e as memórias voltam. Imagens mais claras, imagens vívidas.

Sim, alguém morreu, quase consigo descobrir-lhe as feições, contudo, ainda um ténue véu de nevoeiro se atravessa em frente dos meus olhos curiosos. Vá lá, só mais um esforço.

E o coração não se sobressalta, pois já adivinhava.

Sim, alguém morreu.

Morri, penso. O coração bate agora devagar, baixinho, fraco.

Morri, declaro. O coração quase não se sente agora.

Morri, admito.

E a escuridão levanta-se, e tudo é luz. Há coragem que nasce em quartos escuros, sem janelas, sem portas. A saída não são portas nem janelas, mas essa consciência, consciência plena, total.

Não oiço o meu coração e não é o meu cérebro que pensa.

Morri e o quarto escuro foi uma antecâmara para esta luz que me rodeia agora, que é branca, que é doce, que é silêncio, que é quietude.

Está claro e não posso chorar. Está claro e, oh meu Deus, não posso chorar, porque já não tenho saco lacrimal.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

22 - Desafio Escreva! - Música: Proclamation - Gentle Giant - The Power And The Glory

No imaginário da tua mente passam cores e sons. As guitarras ajudam, ajudam a imaginação, mas é a bateria que a comanda. Esse ritmo incomum, retirado de algum confim de mundo.
Gostavas de dormir, de pousar, repousar a cabeça cansada nessa voz esticada ao extremo, nessa voz fina, macia, mas forte, forte.

(e tudo pode mudar, tudo deve mudar, e tudo deve ficar igual, é tempo de rearranjar)

Os sons atropelam-se numa corrida até ao êxtase, e és tu.
És tu, a chegada.

21 - Desafio Escreva! - Música: Rifluisce Il Fiume - Angelo Branduardi - Gulliver la Luna E Altri Disegni

Essa conversa universal, que não contém palavras, que é feita apenas de sons sussurrados: do monte à neve, que gela as flores e folhas e estende o seu manto branco carinhosamente à volta do seu enamorado. Essa conversa universal, da neve que parte, que vai com a chuva, substituída por rebentos novos de ervas frescas e perfumes de flores coloridas; essa conversa de amantes que se separam com a certeza de que se verão novamente, no momento certo. Não está escrito nos livros, mas os laços da vida reuni-los-ão.

O filho diz à mãe, em infinitos gestos de ternura e amor, que cresce, mas ainda é filho, e ela ainda é mãe. E se se separam, um dia voltarão a ver-se, e as lágrimas serão só de alegria. Não está escrito nos livros, mas os laços da vida reuni-los-ão.

Nada se perderá, tudo ao centro voltará.

A folha dá o seu até já outonal ao ramo amoroso. Na Primavera voltará, pelo menos em espírito, reencarnada noutra adolescente folha verde, espelho seu. Não está escrito nos livros, mas os laços da vida reuni-los-ão.

E a conversa silenciosa do velho com a morte, que o espera? Essa a mais misteriosa de todas, ritmo e som da dança infinita das coisas, da dança que não pára e nunca acaba. Não está escrito nos livros, mas os laços da vida reuni-los-ão.

Nada se perderá, tudo ao centro voltará.

20 - Desafio Escreva! - Música: Wond'ring Again - Jethro Tull - Living In The Past

Sinos no teu casamento, mas no futuro. O futuro não é incerto; no futuro, tudo converge para essa paz primordial, esse suspender de tudo, essa brancura, essa maçã (envenenada) que vem desfazer os pecados de todos os homens, para todo o sempre. Tudo acaba e começa, e já não há árvores.

Condescende, condescende, porque o futuro vem aí.

Vês os prédios destruídos e o pequeno Manfred diz-te que tudo é morte e tu estás morto e ele não tem membros para te abanar.
Não há mais bebés, mas essa calma, esse contentamento, não há bebés, não envelheces.
Escondes-te num buraco. Estás cansado. A neve pesa nos teus ombros frágeis. Matas os insectos que te incomodam, as flores que se atravessam no teu caminho.
Mas sentes agora o peso na consciência, é o futuro, e choras baixinho, o que levaste, o que não deste.

Pensas,
o teu filho,
saberá ele ser melhor?

19 - Desafio Escreva! - Música: For Late - Jethro Tull - Living In The Past

Não há tempo para rascunhos. Há uma festa onde ir. E estão todos lá. Todos lá. Todos lá.

Viras-te, as tuas costas são asas gigantes; mas não vires as costas. Ao passeio. Ao homem na rua. À mulher da vida.

É preciso algum ânimo, esperança, para subir as escadas da tua vida. Porque é tua. Essa vida. A vida. A vida.

Vem como quiseres, vem como acordares, não há tempo para rascunhos.