sábado, 2 de fevereiro de 2008

23 - Desafio Escreva! - Quarto Escuro

Está escuro e não posso chorar. Está escuro e, oh meu Deus, não posso chorar, porque tenho 22 anos e aos 22 anos ninguém tem medo do escuro.

Tento rebuscar, na parte mais recôndita do cérebro, a razão, o porquê. Mas não há memória que me valha nestes momentos de desesperante solidão. Nem as vozes na minha cabeça me acalmam neste lugar desconhecido, sem luz, por pequena que seja, que aqueça o lume da esperança e deixe o coração respirar.

Mas o coração é cheio de recursos e, quando não há esperança, alimenta-se de outras coisas. Há coragem que nasce em quartos escuros, sem janelas, sem portas. E o bater acelerado do coração pára um pouco, tenta bombear o cérebro, como que invectivando, não sejas preguiçoso, não páres, não desesperes, estúpido órgão (não será preciso referir, certamente, que a vaidade do coração, o orgulho que exibe na sua cor sangrenta, ultrapassa até a soberba do cérebro, e o coração acredita seriamente ser superior a esse órgão pensante, ainda que viva abaixo dele).

Então, vêm-me memórias, melhor, fragmentos de memórias, coisas desagradáveis (não admira que não me quisesse lembrar delas). Um grande desespero, gritos arrepiantes de angústia, choro convulso de meter dó às pedras.

Alguém morreu.

Mas quem? Quem? Agora as memórias, mais fracas, vão-se dissipando. Estou sozinha no quarto escuro, outra vez.

Alguém morreu e eu no quarto escuro. Mas qual a misteriosa relação entre essa morte e o quarto escuro?

Espero em silêncio. Sinto a boca amarga, mas já não há lugar para o desespero dentro de mim. O coração bate ritmicamente, cadenciadamente, compassado, harmonioso. O coração bate, injecta sangue nas veias, e o cérebro, irrigado, pulsa em neurónios irrequietos.

Espero e as memórias voltam. Imagens mais claras, imagens vívidas.

Sim, alguém morreu, quase consigo descobrir-lhe as feições, contudo, ainda um ténue véu de nevoeiro se atravessa em frente dos meus olhos curiosos. Vá lá, só mais um esforço.

E o coração não se sobressalta, pois já adivinhava.

Sim, alguém morreu.

Morri, penso. O coração bate agora devagar, baixinho, fraco.

Morri, declaro. O coração quase não se sente agora.

Morri, admito.

E a escuridão levanta-se, e tudo é luz. Há coragem que nasce em quartos escuros, sem janelas, sem portas. A saída não são portas nem janelas, mas essa consciência, consciência plena, total.

Não oiço o meu coração e não é o meu cérebro que pensa.

Morri e o quarto escuro foi uma antecâmara para esta luz que me rodeia agora, que é branca, que é doce, que é silêncio, que é quietude.

Está claro e não posso chorar. Está claro e, oh meu Deus, não posso chorar, porque já não tenho saco lacrimal.