domingo, 12 de dezembro de 2010

41 - Ciaccona

Ssss de dança, queria ser(-te) mas por completo, sem bocados escondidos debaixo de tapetes, colchões, atrás de cortinados. Talvez noutra altura, noutro tempo, noutro espaço, outro eu. Por agora, pequenas cedências, pequenas migalhas, apenas hologramas em camadas que vou dispensando. Há tanto tempo que já não sinto, que quase já não reconheço. Agora, de repente, tantas sensações que tinha esquecido. Como se voltasse a ser criança, adolescente. E nem este sentimento de culpa abafa, como se os sentidos estivessem há tanto tempo adormecidos e agora acordassem e estivessem ofuscados, e tudo extravasasse, tudo fosse maior e melhor. Vontade de novo de adormecer e sonhar com castelos e princesas e histórias de encantar. Como se eu contivesse algum valor oculto que nunca ninguém ousou dizer. E, tão novo, tão disposto a agradar, encontras, e mostras, e reafirmas. De propósito e com teclas e com cordas e com sons tão macios, tão envolventes, para me sentir bem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

40 - Hoje

Acho que cresci para além do meu corpo e já não me reconheço em mim.

As coisas que me faziam viver estão mortas nos caminhos.

Mas o que poderá ter acontecido entre ontem e hoje?

Eu já não sou quem era.

39 - Compromisso

Espremer qualquer coisa como se fosse
Água.
E tu dizes, Não, não
Não com tanta intensidade.

Mas são mãos sem rumo e não há sinal de
STOP

Há casas escondidas nos teus olhos
E crianças
Crianças atrás das cortinas com medo do Pai Natal
Debaixo do sofá

Há murmúrios no céu da tua boca
Fazem eco no esófago

(Eu disse assim,
Amor, dá-me a mão,
E tu deste)

O teu cérebro está dormente
Mas deixa-o

Tu sabes o que dói
Nas linhas que querias (crias)
Mas não te dás, não te pões
Mãos pés tronco
nas linhas
Querias ser
A música, a cor, o movimento, o sentido
Querias ser a essência
De tudo
Sem ser nada

É preciso haver um compromisso.

Mas tu não queres cair sem rede por baixo
Ou não vês a rede
Ou não queres ver a rede
Ou não há mesmo rede
Tens medo que te doa
Dizes que és frágil
Tens medo que te parta
Essa força, essa determinação, esse pé no vazio

Giras os pulsos e rodas a cabeça e fazes esgares de
Incómodo.

É tudo um grande incómodo.

Mas o que te incomoda?
Dás voltas e voltas e procuras inspiração em
Palavras sujas de pó
Julgas que são tuas, que as podes prender
Marcar como gado
As palavras, não são tuas
Foram tuas, talvez, naqueles milissegundos em que percorreram os teus nervos do cérebro à mão]

Não queres ser uma repetição, imitação
De ti
Mas é fácil o caminho
Pôr pés em falso
Tapar os olhos com mãos entreabertas.

Se queres.
Queres.
Faz.

38 - Desafio Escreva! - Criação

Ssss ao longe fez lembrar-Me como um esquecimento do dia anterior. Não havia ainda anterior, nem dia, nem sequer esse som sibilante, mas lembrei-Me.

Uma espécie de consciência suave, como um despertar de um sonho, fez-Me cócegas na orelha direita. Então, uma dormência no dedo mindinho da mão esquerda sacudiu-se e caíu no vazio. Suavemente mas com fluidez, Eu fui Eu.

O meu pensamento era claro, límpido. Tudo era já. Eu e as coisas que sou Eu também. Era já, mas não ainda.

Se tudo sou Eu, havia nada fora de mim. E todas as Minhas formas foram uma conquista ao vazio.

No final, olhei para Mim e era o princípio.

37 - Antigo

Quando me vou embora, amor
Tu não sabes mas transformo-me numa espécie de neblina
Vaga
Como a tua memória de mim

Tenho o rosto difuso
E as palavras entrecortadas
E não sou eu

Se me visses, não me reconhecerias.

Mas tu vens sempre na hora certa
Quando eu sou eu outra vez.

Se soubesses, amor
Como sou só metade de qualquer coisa
Quando nos separamos
E que a tristeza
A resignação
Triste
Pesa em horas de ócio...

Ao pé de ti
Não há horas de ócio

Só felicidade.

Amor, se eu conseguisse
Explicar
Mas (já) não tenho jeito com as palavras
Não gostam muito de mim
Algumas.

Talvez não mereça sequer sentir
Esta saudade
A falta que me fazes
E o amor
Talvez não mereça
Mas tive sorte
Como um bilhete de lotaria
(E eu que nunca joguei)

Se soubesses
Como me dói (dentro)
A tua ausência.
E o pouco sentido que acho na vida
Serve apenas para ir vivendo
Quase
Automaticamente.

Que conjunto de nada
Te posso dar?
Eu sou
Pobre
E tu sabes
E já sabias
E mesmo assim quiseste
(primeiro a medo e depois com confiança - como se quer)

Tu
Obrigas-me a ser
Uma pessoa sério.
Eu antes (antes de ti)
Não queria
Fechava os olhos
Ou qualquer coisa assim.

Dás-me tanto
E eu
Não tenho nada para te dar
Só, talvez,
Mas nem isso, se calhar
E eu dou-te tudo, amor
Se descobrires alguma coisa
No meio deste nada.

E, mesmo assim,
Quando estou contigo
Até penso que qualquer coisa se aproveita

Mas sou só uma imitação de mim
No dia-a-dia.

Sem ti,
Não sei.

Mas contigo
Sinto que tudo
(aquele tudo infantil, adolescente, ingénuo)
Sim, tudo
É possível.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

36 - Core

Pés descalços sobre linhas finas nylon brancas
Correr, saltar, subir aquela rua que vai dar à tua casa.
Estender os braços abertos e deixar-me cair para trás esperar a tua respiração a tua mão o teu olhar seguro como mil pares de braços a agarrarem o meu corpo dormente
Um sorriso esboço de sorriso como quem é feliz
Saber que sim ou não comer lavar ler trabalhar e cantar para ti
Como um melro à janela abanar-me ao som do preto da música da guitarra do cravo das crinas de um cavalo que me leva, te leva nos leva por aí

Fazer uma festa em que somos nós os festejados no meio de cores e notas e milhares de rostos alegres que nos querem felicitar.
Dançar uma valsa, bourrée uma dança mal amanhada uns passos toscos, mas dançar contigo sobre mim girar ter uma saia rodada e mostrar a saia a roda da saia a toda a gente girar girar girar

domingo, 24 de janeiro de 2010

35 - Mourn

Essa nota, agora para sempre desafinada.

De que me servem as escalas agora? De que me servem os dedos, as mãos? De que me serve a voz? De que me serve respirar e viver?

Essa nota, agora para sempre dissonante.

Os meus nervos ainda não transmitiram ao cérebro. Não estás aqui, mas o meu cérebro dormente diz que sim. Porque não conhece outra realidade.

Essa nota, agora para sempre calada.

Nunca mais o riso, o calor, o carinho, a voz.
Nunca mais as tuas mãos e as minhas.