quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

37 - Antigo

Quando me vou embora, amor
Tu não sabes mas transformo-me numa espécie de neblina
Vaga
Como a tua memória de mim

Tenho o rosto difuso
E as palavras entrecortadas
E não sou eu

Se me visses, não me reconhecerias.

Mas tu vens sempre na hora certa
Quando eu sou eu outra vez.

Se soubesses, amor
Como sou só metade de qualquer coisa
Quando nos separamos
E que a tristeza
A resignação
Triste
Pesa em horas de ócio...

Ao pé de ti
Não há horas de ócio

Só felicidade.

Amor, se eu conseguisse
Explicar
Mas (já) não tenho jeito com as palavras
Não gostam muito de mim
Algumas.

Talvez não mereça sequer sentir
Esta saudade
A falta que me fazes
E o amor
Talvez não mereça
Mas tive sorte
Como um bilhete de lotaria
(E eu que nunca joguei)

Se soubesses
Como me dói (dentro)
A tua ausência.
E o pouco sentido que acho na vida
Serve apenas para ir vivendo
Quase
Automaticamente.

Que conjunto de nada
Te posso dar?
Eu sou
Pobre
E tu sabes
E já sabias
E mesmo assim quiseste
(primeiro a medo e depois com confiança - como se quer)

Tu
Obrigas-me a ser
Uma pessoa sério.
Eu antes (antes de ti)
Não queria
Fechava os olhos
Ou qualquer coisa assim.

Dás-me tanto
E eu
Não tenho nada para te dar
Só, talvez,
Mas nem isso, se calhar
E eu dou-te tudo, amor
Se descobrires alguma coisa
No meio deste nada.

E, mesmo assim,
Quando estou contigo
Até penso que qualquer coisa se aproveita

Mas sou só uma imitação de mim
No dia-a-dia.

Sem ti,
Não sei.

Mas contigo
Sinto que tudo
(aquele tudo infantil, adolescente, ingénuo)
Sim, tudo
É possível.