Se fores responsável por um amor, e as letras, então talvez esboces um sorriso.
Não sejas tão
agressiva
amarga
frustrada
Aceita e dá com alegria
Aprende a ser assim simples.
Que a tua dádiva seja dádiva real e não o que dás por obrigação.
Sê o que és. isso, sobretudo.
Sê o que és.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
quinta-feira, 29 de maio de 2008
quinta-feira, 15 de maio de 2008
27 - Concepção
Por entre carícias e gemidos
Brotou, fulgurosa, nova vida
E no seio dos corpos desfalecidos
Resta o cheiro da união consentida
Brotou, fulgurosa, nova vida
E no seio dos corpos desfalecidos
Resta o cheiro da união consentida
domingo, 4 de maio de 2008
26 - Todos os outros
Um desânimo. Falta de esperança na vida, nas coisas da vida, na vida das coisas. Não é uma serpentina, não é uma concertina, a tua vida não é uma música qualquer. Pede um bocado mais, um bocado mais de esforço. Fé. Essas coisas. Andas, encolhes os ombros por um caminho qualquer. Não te interessa. E se acabasse agora, não te interessa.
É um desânimo como um enjoo (já sem acento circunflexo). Qual o remédio? Já estás farta de doces, o mel é doce, já estás farta. Aborrecida.
E se vier um cavalo branco de asas compridas? Não, não, nada te pode salvar desse desânimo, nada que te seja externa, estranha.
Então, esses aliens que não vejo todos os dias...?
Se pudesses saber, mas a compreensão do universo é tão esmagadora que não dura mais que um segundo - ou o teu cérebro explodiria - e quantas mais vezes te vais enganar na posição do cabide, uma estúpida ilusão de óptica, e aí tens.
E o desânimo é um cansaço e o cansaço é um tijolo do tamanho do mundo e tu debaixo dele é normal que não te consigas levantar, é normal essa preguiça, a culpa é do tijolo.
segunda-feira, 31 de março de 2008
25 - Eu queria ser
O que hei-de fazer com costas de ti? E das pessoas. Uma aflição insuspeita abana-me a perna (e é a direita, mas não me apetecia rimar). Que hei-de fazer com palavras apagadas? as palavras não se ressuscitam como ...
Tenho medo dos desastres naturais e dos outros, porque os meus sonhos acordada estão cheios de perigos. E, contudo, sobrevivemos.
Não posso ser eu a cabeça que pensa isto tudo. Mas então quem ou o quê?
Existe uma certa angústia nestas linhas e quase tão palpável
Existe uma certa confusão nestas linhas e existe
Não sei se foi de me deixares sozinha, a chorar
Não sei se foi de me deixar sozinha a chorar
Entretanto apago coisas pelo caminho, talvez consiga fazer de mim os fragmentos de mim mas só os que eu quiser aqueles mesmo bons que não existem
Se vivi tão feliz a felicidade é eterna? Existem tantas perguntas, meu Deus, existem tantas perguntas, existem tantas perguntas, meu Deus, meu Deus, meu Deus, existem tantas perguntas e desespero.
Alguém tinha de to dizer. Existem perguntas e lágrimas como mãos estendidas ao céu e preces de boca fechada. Existem trabalhos e mãos calejadas pés doridos existem rugas nas caras das mães existem sacrifícios calados existe sofrimento e existe.
Dói-me a parte de trás da alma, não, mais para a direita.
O que se passou com lado direito do meu ser?
Serei eu essa folha? Essa luz? Essa cama? Esse astronauta?
Dá-me, dá-me tudo e eu farei
quarta-feira, 5 de março de 2008
24 - Às escondidas
O que me mostras ser, e depois...
Há sereias escondidas nas rochas dos teus sorrisos. Como se a qualquer momento fosse estalar, esse verniz.
Mas não estala, nunca estala. O meu, talvez. O teu, nunca.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
23 - Desafio Escreva! - Quarto Escuro
Está escuro e não posso chorar. Está escuro e, oh meu Deus, não posso chorar, porque tenho 22 anos e aos 22 anos ninguém tem medo do escuro.
Tento rebuscar, na parte mais recôndita do cérebro, a razão, o porquê. Mas não há memória que me valha nestes momentos de desesperante solidão. Nem as vozes na minha cabeça me acalmam neste lugar desconhecido, sem luz, por pequena que seja, que aqueça o lume da esperança e deixe o coração respirar.
Mas o coração é cheio de recursos e, quando não há esperança, alimenta-se de outras coisas. Há coragem que nasce em quartos escuros, sem janelas, sem portas. E o bater acelerado do coração pára um pouco, tenta bombear o cérebro, como que invectivando, não sejas preguiçoso, não páres, não desesperes, estúpido órgão (não será preciso referir, certamente, que a vaidade do coração, o orgulho que exibe na sua cor sangrenta, ultrapassa até a soberba do cérebro, e o coração acredita seriamente ser superior a esse órgão pensante, ainda que viva abaixo dele).
Então, vêm-me memórias, melhor, fragmentos de memórias, coisas desagradáveis (não admira que não me quisesse lembrar delas). Um grande desespero, gritos arrepiantes de angústia, choro convulso de meter dó às pedras.
Alguém morreu.
Mas quem? Quem? Agora as memórias, mais fracas, vão-se dissipando. Estou sozinha no quarto escuro, outra vez.
Alguém morreu e eu no quarto escuro. Mas qual a misteriosa relação entre essa morte e o quarto escuro?
Espero em silêncio. Sinto a boca amarga, mas já não há lugar para o desespero dentro de mim. O coração bate ritmicamente, cadenciadamente, compassado, harmonioso. O coração bate, injecta sangue nas veias, e o cérebro, irrigado, pulsa em neurónios irrequietos.
Espero e as memórias voltam. Imagens mais claras, imagens vívidas.
Sim, alguém morreu, quase consigo descobrir-lhe as feições, contudo, ainda um ténue véu de nevoeiro se atravessa em frente dos meus olhos curiosos. Vá lá, só mais um esforço.
E o coração não se sobressalta, pois já adivinhava.
Sim, alguém morreu.
Morri, penso. O coração bate agora devagar, baixinho, fraco.
Morri, declaro. O coração quase não se sente agora.
Morri, admito.
E a escuridão levanta-se, e tudo é luz. Há coragem que nasce em quartos escuros, sem janelas, sem portas. A saída não são portas nem janelas, mas essa consciência, consciência plena, total.
Não oiço o meu coração e não é o meu cérebro que pensa.
Morri e o quarto escuro foi uma antecâmara para esta luz que me rodeia agora, que é branca, que é doce, que é silêncio, que é quietude.
Está claro e não posso chorar. Está claro e, oh meu Deus, não posso chorar, porque já não tenho saco lacrimal.
Tento rebuscar, na parte mais recôndita do cérebro, a razão, o porquê. Mas não há memória que me valha nestes momentos de desesperante solidão. Nem as vozes na minha cabeça me acalmam neste lugar desconhecido, sem luz, por pequena que seja, que aqueça o lume da esperança e deixe o coração respirar.
Mas o coração é cheio de recursos e, quando não há esperança, alimenta-se de outras coisas. Há coragem que nasce em quartos escuros, sem janelas, sem portas. E o bater acelerado do coração pára um pouco, tenta bombear o cérebro, como que invectivando, não sejas preguiçoso, não páres, não desesperes, estúpido órgão (não será preciso referir, certamente, que a vaidade do coração, o orgulho que exibe na sua cor sangrenta, ultrapassa até a soberba do cérebro, e o coração acredita seriamente ser superior a esse órgão pensante, ainda que viva abaixo dele).
Então, vêm-me memórias, melhor, fragmentos de memórias, coisas desagradáveis (não admira que não me quisesse lembrar delas). Um grande desespero, gritos arrepiantes de angústia, choro convulso de meter dó às pedras.
Alguém morreu.
Mas quem? Quem? Agora as memórias, mais fracas, vão-se dissipando. Estou sozinha no quarto escuro, outra vez.
Alguém morreu e eu no quarto escuro. Mas qual a misteriosa relação entre essa morte e o quarto escuro?
Espero em silêncio. Sinto a boca amarga, mas já não há lugar para o desespero dentro de mim. O coração bate ritmicamente, cadenciadamente, compassado, harmonioso. O coração bate, injecta sangue nas veias, e o cérebro, irrigado, pulsa em neurónios irrequietos.
Espero e as memórias voltam. Imagens mais claras, imagens vívidas.
Sim, alguém morreu, quase consigo descobrir-lhe as feições, contudo, ainda um ténue véu de nevoeiro se atravessa em frente dos meus olhos curiosos. Vá lá, só mais um esforço.
E o coração não se sobressalta, pois já adivinhava.
Sim, alguém morreu.
Morri, penso. O coração bate agora devagar, baixinho, fraco.
Morri, declaro. O coração quase não se sente agora.
Morri, admito.
E a escuridão levanta-se, e tudo é luz. Há coragem que nasce em quartos escuros, sem janelas, sem portas. A saída não são portas nem janelas, mas essa consciência, consciência plena, total.
Não oiço o meu coração e não é o meu cérebro que pensa.
Morri e o quarto escuro foi uma antecâmara para esta luz que me rodeia agora, que é branca, que é doce, que é silêncio, que é quietude.
Está claro e não posso chorar. Está claro e, oh meu Deus, não posso chorar, porque já não tenho saco lacrimal.
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