domingo, 27 de janeiro de 2013

44 - Sonho

Tive um sonho que me acompanhou durante o dia.

Quando desanimei, ele puxou-me para cima.
Quando fiquei nervosa, relaxou-me.
Quando estava aborrecida, entreteve-me.

Era um sonho. Eu, tu, e casas da minha história.
Tu concordavas e com cada casa crescia
A história, e a nossa.

Depois, era também aquela casa
Com tanto simbolismo e ligação
À história, e à nossa.

Deste-me a mão
(que antes tinhas passado nos meus cabelos).

Tive um sonho que me acompanhou durante o dia.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

43 - L'âme du poète

É preciso enfezar
e depois crescer, crescer para dentro
Uma espécie de implosão.
Eu busco uma verdade -
Eu não sei a verdade nas notas,
Joana. Mas a verdade
nas palavras.
Tão clara.
Evidente.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

42 - ZNP

A vida, um sopro breve, e os teus planos, puff, no ar.
Mas há quem espere, e confie, e siga sempre em frente.
Eu pequenina, encolhida.
Eu envergonhada, peço licença.
Por favor, posso viver?
Se me permite, senhor, posso ser?
À minha volta os gigantes passeiam-se, pavoneando-se.
E eu, se faz favor, mas é um fio de voz e não me ouvem.
E como tudo concentrado em mim, as doenças e as mortes, não há corpo que resista.
A nuvem negra que veio e se instalou, adensa-se, opulenta, e ri-se.
E eu, minúscula, eu, um grão, como pode um grão agigantar-se contra a nuvem poderosa?
E no entanto, outros caminham, e as nuvens negras oprimem-nos mais. Mas ainda assim caminham e vivem. E morrem só no fim.

domingo, 12 de dezembro de 2010

41 - Ciaccona

Ssss de dança, queria ser(-te) mas por completo, sem bocados escondidos debaixo de tapetes, colchões, atrás de cortinados. Talvez noutra altura, noutro tempo, noutro espaço, outro eu. Por agora, pequenas cedências, pequenas migalhas, apenas hologramas em camadas que vou dispensando. Há tanto tempo que já não sinto, que quase já não reconheço. Agora, de repente, tantas sensações que tinha esquecido. Como se voltasse a ser criança, adolescente. E nem este sentimento de culpa abafa, como se os sentidos estivessem há tanto tempo adormecidos e agora acordassem e estivessem ofuscados, e tudo extravasasse, tudo fosse maior e melhor. Vontade de novo de adormecer e sonhar com castelos e princesas e histórias de encantar. Como se eu contivesse algum valor oculto que nunca ninguém ousou dizer. E, tão novo, tão disposto a agradar, encontras, e mostras, e reafirmas. De propósito e com teclas e com cordas e com sons tão macios, tão envolventes, para me sentir bem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

40 - Hoje

Acho que cresci para além do meu corpo e já não me reconheço em mim.

As coisas que me faziam viver estão mortas nos caminhos.

Mas o que poderá ter acontecido entre ontem e hoje?

Eu já não sou quem era.

39 - Compromisso

Espremer qualquer coisa como se fosse
Água.
E tu dizes, Não, não
Não com tanta intensidade.

Mas são mãos sem rumo e não há sinal de
STOP

Há casas escondidas nos teus olhos
E crianças
Crianças atrás das cortinas com medo do Pai Natal
Debaixo do sofá

Há murmúrios no céu da tua boca
Fazem eco no esófago

(Eu disse assim,
Amor, dá-me a mão,
E tu deste)

O teu cérebro está dormente
Mas deixa-o

Tu sabes o que dói
Nas linhas que querias (crias)
Mas não te dás, não te pões
Mãos pés tronco
nas linhas
Querias ser
A música, a cor, o movimento, o sentido
Querias ser a essência
De tudo
Sem ser nada

É preciso haver um compromisso.

Mas tu não queres cair sem rede por baixo
Ou não vês a rede
Ou não queres ver a rede
Ou não há mesmo rede
Tens medo que te doa
Dizes que és frágil
Tens medo que te parta
Essa força, essa determinação, esse pé no vazio

Giras os pulsos e rodas a cabeça e fazes esgares de
Incómodo.

É tudo um grande incómodo.

Mas o que te incomoda?
Dás voltas e voltas e procuras inspiração em
Palavras sujas de pó
Julgas que são tuas, que as podes prender
Marcar como gado
As palavras, não são tuas
Foram tuas, talvez, naqueles milissegundos em que percorreram os teus nervos do cérebro à mão]

Não queres ser uma repetição, imitação
De ti
Mas é fácil o caminho
Pôr pés em falso
Tapar os olhos com mãos entreabertas.

Se queres.
Queres.
Faz.

38 - Desafio Escreva! - Criação

Ssss ao longe fez lembrar-Me como um esquecimento do dia anterior. Não havia ainda anterior, nem dia, nem sequer esse som sibilante, mas lembrei-Me.

Uma espécie de consciência suave, como um despertar de um sonho, fez-Me cócegas na orelha direita. Então, uma dormência no dedo mindinho da mão esquerda sacudiu-se e caíu no vazio. Suavemente mas com fluidez, Eu fui Eu.

O meu pensamento era claro, límpido. Tudo era já. Eu e as coisas que sou Eu também. Era já, mas não ainda.

Se tudo sou Eu, havia nada fora de mim. E todas as Minhas formas foram uma conquista ao vazio.

No final, olhei para Mim e era o princípio.