Acordou tarde, sozinho. Arrastou-se entre o banho e o pequeno-almoço. Cabelo desalinhado, olhos inchados de uma noite longa. O café trouxe-lhe vida pelas veias. O sol aqueceu-lhe o ânimo. Olhou pela janela e soube: era dia de ser.
Saíu já o sol ia alto. Na mala do carro levava a prancha fiel. E fez-se à estrada, sorridente. As curvas do caminho antecipavam outras curvas mais apetecidas. Sentiu-se o dono daquela estrada quase vazia. As rodas, o alcatrão, o volante, os sons do dia, cheiros de animais pequenos e verdura fresca e finalmente o sal e a areia, tudo ardia como uma antecipação que não se aguenta mais e queima a garganta, os olhos, todo o corpo.
Chegou à praia, não havia vivalma. Nuvens adensavam-se, escureciam. O Sol envergonhava-se sob um véu cinzento. Vestiu o fato, tirou a capa da prancha. Fechou o carro, encaminhou-se para o mar, prancha debaixo do braço esquerdo. Cada passo como uma sentença, mas ele sem saber.
Olhou o mar, o mar olhou-o.
Cada onda redonda enorme a espumar era um desafio.
Cerrou os dentes. Sentiu a areia arranhar-lhe os dedos dos pés. Pernas abertas, fincadas no chão amolecido, prendiam o corpo fustigado pelo vento. O corpo que estava pronto.
Aventurou-se mar adentro. O mar envolveu-o prontamente. O mar engoliu-o por segundos, mas o mar devolveu-o à tona. O mar brincou com a sua prancha, sacudiu-lhe os membros, enrolou-o numa espécie de paixão violenta.
Nadava furiosamente, apanhava a onda, cavalgava a onda, não domava a onda, caía da onda.
A onda atirava-o violentamente para baixo.
E repetia o movimento, respiração ofegante, cabelos cheios de areia, corpo amassado.
Dorido, cansado, quebrado, decidiu voltar. Mas já não conseguiu.
Um casal que passava viu um ponto negro no mar. Segundos depois, apenas a fúria das ondas.
(Desafio aqui)